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O dia em que eu não quis sair do banheiro

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Eram 3 da tarde de um sábado cansativo.
Já fazia 3 dias que ela acordara por volta das 5:30 da manhã com disposição, mas ao mesmo tempo, exigente de que tudo saísse do jeito dela (vulgo: manhosa).

Estava exausta. Porque além de já estar com sono e cansaço acumulados que eu sabia que não conseguiria recuperar, era sábado. E esse era justamente o dia de colocar em ordem o que baguncei durante a semana. Organizar a casa, lavar várias maquinadas de roupa e claro, dar toda a atenção que não pude dar de segunda a sexta para ela.
Eu só desejava que ela cansasse o suficiente a ponto de deitar na cama e dormir do jeito que fosse.
Mas é claro que não seria assim.

O sono chegou pra ela também, mas eu não sei porque (nem como) dormir pode ser algo taaao complicado. Deita a cabeça no travesseiro, fecha o olho e pronto. Só que não.
Sabia que tirar um cochilo seria um pouco quase impossível, por isso me dediquei para facilitar as coisas. Brinquei, arrumei um cantinho super aconchegante, liguei a tal da Peppa e comecei a pedir pra Deus desesperadamente que ele zelasse seu sono.
Um episódio do desenho acabou e ela chegou a dar umas piscadelas mais demoradas, mas nada de realmente dormir.
De repente, levantou da cama e começou a gritar. Eu estava tão exausta que mal conseguia entender o que ela queria.
Era xixi, e depois que levei ao banheiro, pediu água. Levantei mais uma vez com a disposição de uma lesma e peguei. A essa altura eu só tentava controlar minha sanidade que parecia se esvair cada minuto mais depressa.
Ela bebeu um mísero gole de um copo cheio (porque do jeito que ela havia gritado pela água parecia que tinha passado o dia no deserto do Saara), e inventou mais um pedido: queria leite com Nescau.
Como não fazia muito tempo que havíamos almoçado, neguei. Ela começou a insistir da forma que eu mais tenho pavor: aos berros.
Como essa atitude comigo só piora as coisas (nunca cedo quando é na base do grito, senão ela se acostuma e acha que sempre vai me vencer assim), fui ainda mais firme e disse mais inúmeros NÃOS.

A medida que os gritos aumentavam, eu sentia que uma parte da minha consciência ia embora.
Acabei caindo na besteira de me perguntar se aguentaria mais que aquilo, e é claro, a vida não deixaria barato o teste do meu limite (que eu já nem sabia se existia).
Ela gritava e eu queria chorar.
Cheguei a quase dar o braço a torcer, mas eu sabia que aquilo seria ainda pior.
Tentei distrai-la com outras coisas, mas aquilo definitivamente era um teste daqueles.

Em segundos fiquei cega de desespero. Eu olhava praquela criança que já estava até jogada no chão e chorava a ponto de quase perder a respiração e não conseguia mais ver beleza nenhuma naquilo.
Naquele momento eu só tentava focar no quanto eu amava a maternidade, mas o negócio estava tão feio que eu cheguei a me questionar “eu amava mesmo?”.
Quem no mundo é tão masoquista a ponto de amar sentir-se um ser imprestável?

A cena só piorava e eu sentia minhas pernas tremerem de desespero. Olhei para o lado e só vi a porta do banheiro aberta. Não pensei duas vezes: sentei na tampa da privada e fechei a porta. Coloquei as mãos na cabeça como quem se pergunta “Por que eu? Por que comigo?” (eu estava mesmo me questionando por isso), e senti que iria desmoronar.

Meu choro interno quase ultrapassava a força dos gritos que ela dava com a cara grudada na porta. Acho que apaguei por alguns segundos, e quando consegui voltar a raciocinar, percebi que o som do lado de fora estava abaixando. Ainda assim, não tinha forças para sair. Esperei mais uns 2 minutos, e quando notei que o choro escandaloso havia cessado, lavei o rosto, respirei fundo e saí.

Mal abri a porta e dei de cara com ela. Os olhos já ultrapassavam a vermelhidão comum dos choros, e ela soluçava (e eu também). Perguntei o que havia acontecido e ela só conseguia suspirar. Dei um abraço bem forte e perguntei se ela finalmente queria tirar um cochilo. Pela graça de Deus, a resposta foi um sim baixinho, acrescido de um abraço suave como quem diz “me desculpe”. Deitei com ela na cama e ficamos assistindo desenho por 5 minutos, logo em seguida ela dormiu nos meus braços.

Cheguei a me culpar por ter tido esse momento “não me toque”, mas olhando aquela carinha linda com a maior serenidade do mundo, percebi que para que pudesse respirar aliviada novamente, eu precisava ter ficado ali, dentro do banheiro procurando pelo pouco que restava de mim.

Sabe, a maternidade tem altos e baixos visíveis, mas não vivê-los é um erro imenso.
Afinal, quando a felicidade reina dentro de casa, sempre reforço a importância do quanto devemos aproveitar os bons momentos.
Mas e quando o bicho pega? Quando a gente atinge aquele limite de esforço, paciência e (por que não) maturidade?
A gente finge que tá tudo bem? Que não precisa se acalmar?

Se eu contar essa história para uma pessoa que não é mãe, talvez eu seja chamada de louca.
Mas só nós, que procuramos viver intensamente a maternidade, sabemos que quando as coisas deixam de ser flores, o banheiro pode se tornar o local mais seguro do mundo.
E se você me perguntar se eu me arrependo, a minha resposta com certeza será não. Loucura mesmo é tentar absorver tudo sem desabar de vez em quando. As mães também têm esse direito, viu?
E eu me absolvo da culpa. Porque senti-la é confirmar a inverdade que devemos ser perfeitas, quando na verdade, ainda somos meras humanas.

 

8 thoughts on “O dia em que eu não quis sair do banheiro

  1. Estamos juntas nessa! Santo banheiro! Pude me enxergar e até rir do teu desabafo, quem nunca passou por isto que atire a primeira pedra! Força pra nós, ou melhor, paciência! :-*

  2. Que lindo Stephanie!! Não sou mãe mas ajudei a criar minha prima até os 3 anos e já achei bem desafiador. Mas é a coisa mais gostosa quando você vê o resultado de tudo isso né?
    Parabéns pela força!
    Beijos

  3. Parabéns por ser tão sincera, Stephanie! Vejo muitos blogs por aí só falando das maravilhas da maternidade… Não que ser mãe não seja incrível, mas é super importante abordar os mais diversos temas, inclusive os momentos difíceis, que ajudem outras mães a compreenderem que eles são parte do processo e que, no final, dá tudo certo! 🙂

  4. Lendo esse texto, consigo perceber que eu não sou a única, graças a Deus! Pq eu muitas e muitas vezes já me me fiz essa mesma pergunta… Mas então vejo a carinha dela taaao dependente de mim, q logo passa. O pior é quando as pessoas não nos entendem.

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